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Aqui vai o primeiro capítulo:
O que a cobra não explica
Vale do Serchio, Itália — outubro de 1944
O frio não vinha do vento. Vinha do chão.
O 3o sargento Antônio Duarte andava com o fuzil alto demais para relaxar e baixo demais para parecer ameaça. O capote pesava como se tivesse sido molhado por dentro. A trilha estreita acompanhava o rio, que ele não via — só ouvia: água escura arrastando pedra, insistente, como se o vale respirasse pelos dentes.
Atrás, nove homens em fila espaçada. A FEB fazia o que podia com o que tinha. Nos bolsos, cartas amassadas. No corpo, falta de sono. No braço, o remendo: a cobra fumando — costura grosseira, símbolo estranho para quem vinha de um país que não devia estar ali.
Para os americanos, era novidade. Para eles, era só mais uma noite.
Antônio parou e levantou o punho.
A fileira travou. Ninguém falou. O treinamento apressado no Brasil não ensinara montanha europeia, mas ensinara a obedecer a sinal sem pergunta. O silêncio, ali, era o que sobrava quando o medo já tinha sido gasto.
Ele ficou imóvel, ouvindo.
Nada.
Nem tiro. Nem motor. Nem cão. Nem passos.
Só o rio. E um ruído fino que podia ser vento ou podia ser outra coisa, a mesma coisa que às vezes se ouvia antes do amanhecer no interior — quando tudo parece estar no lugar, mas não está.
Antônio fez sinal com dois dedos.
— Dois a dois. Avança.
As botas pisaram lama e folha esmagada. A névoa subia pela canela como fumaça baixa.
Cheiro de terra molhada, pólvora antiga, couro úmido.
O cabo Santos encostou perto o suficiente para falar sem levantar a voz.
— Sargento... corre um boato no acampamento, entre os pracinhas e os aviadores do Grupo de Caça. Luz que acompanha avião. Sem barulho. Sem motor. Dizem que muda de cor.
Antônio continuou andando.
— Se tem luz, não é com a gente.
— Dizem que fica... pensando. Parada. Olhando.
Essa última palavra ficou no ar por um segundo a mais do que devia.
Antônio não respondeu. Preferiu o caminho.
A chuva vinha e ia em fios finos. O vale fechava a vista. Às vezes o céu era só uma mancha escura entre cristas.
E então o mundo perdeu um som.
Foi sutil. Não foi um estrondo. Foi um desaparecimento: o vento afrouxou, o rio pareceu longe demais, e até o atrito das botas virou coisa pequena.
Antônio levantou o punho de novo.
Parada.
O grupo congelou com a rapidez de quem já tinha visto homem cair sem gritar.
E a luz apareceu.
Não riscou o céu. Não veio de trás da montanha.
Não se anunciou.
Ela só estava.
Um ponto firme entre duas cristas, forte demais para estrela, perfeito demais para sinalizador.
Cresceu como se se aproximasse sem atravessar o espaço. Branco, metálico, sem halo.
Ninguém falou.
O brilho parecia escolher o que iluminar: uma faixa de copa, um pedaço de pedra, a pele molhada de um rosto — e o resto permanecia escuro, intacto.
A névoa ao redor dela subiu e, por um instante, a impressão foi física, indecente:
Como se a luz puxasse o ar para si.
Tum.
Um pulso curto que mexeu o peito.
Tum.
Outro.
Não era som. Era pressão. Era o mundo lembrando que tinha corpo.
Um soldado atrás sussurrou alguma coisa que ninguém entendeu. Outro fez o sinal da cruz tão rápido que parecia uma vergonha.
— Isso não é alemão — disse Santos.
Antônio abriu a boca para mandar calar.
E não mandou.
Porque não era medo de combate. Não era emboscada. Não era o cálculo de “onde está metralhadora”.
Era uma sensação mais antiga, sem nome de guerra: a certeza de estar diante de algo que não precisava deles para existir.
A luz mudou.
Branco.
Âmbar.
Azul — um azul fundo demais, como se o escuro tivesse sido sugado e devolvido em cor.
O pulso veio de novo. Tum.
Antônio sentiu o estômago apertar, mas não vomitou. Sentiu o couro das luvas ficar quente por um instante, como se a temperatura tivesse recebido ordem e obedecido.
A luz ficou imóvel por um tempo que ninguém soube medir.
Depois ela não se moveu.
Ela deixou de estar onde estava — e passou a estar no alto das montanhas, do outro lado do vale, como quem troca de lugar sem atravessar caminho.
E então sumiu.
Não explodiu. Não virou estrela. Não caiu.
Sumiu como se nunca tivesse estado.
O vento voltou de uma vez.
A chuva retomou o fio.
O rio reapareceu com raiva, pedra em pedra.
Antônio inspirou fundo. A respiração saiu com atraso, como se o corpo estivesse esperando autorização para funcionar.
— Formação — ele disse, a voz curta. — Agora.
Ninguém discutiu. Ninguém pediu explicação. O grupo voltou a andar com uma disciplina que não era bravura — era defesa.
O posto avançado era uma casa de pedra, teto baixo, luz abafada por manta. O ar cheirava a fumaça velha e roupa úmida. Um oficial americano aguardava com o uniforme limpo demais para aquele vale. O cigarro aceso parecia a única coisa quente nele.
Ele apontou para o grupo.
— Patrol?
Antônio não falava inglês. Não daquele jeito — não em frase. Mas certas palavras se aprendiam sem escola, repetidas no mesmo tom por semanas: patrulha, inimigo, agora, volta. Patrol era uma delas. Ele repetia o que precisava do jeito que dava, engolindo som e vergonha: o suficiente para obedecer.
Ele assentiu.
— Yes, sir.
O americano fez outra pergunta, curta.
— Enemy?
Essa também não precisava de tradução.
— No, sir.
O oficial sustentou o olhar por um instante — como quem mede mais o rosto do que a
resposta. Então disse uma palavra só, seca, e apontou com o queixo para fora, para o escuro entre as montanhas:
— Light.
Antônio ficou imóvel, porque aquela palavra não era das que se aprendiam fácil.
Ao lado, o cabo Santos — que já tinha virado “ponte” entre línguas desde o primeiro
acampamento, por ter ouvido americano no cais, por ter aprendido de ouvido, por ter
coragem de errar — arriscou em voz baixa, sem pose:
— Luz, sargento... ele tá falando de luz.
O americano desenhou no ar um risco torto com o dedo, como se rabiscasse o céu.
Santos completou, quase cochichando, como quem monta a frase com restos:
— Luz... no céu. Avião... coisa.
Antônio respondeu com o que tinha: o mínimo.
— No. No light.
O americano não discutiu. Só registrou com o corpo — uma inclinação curta de cabeça, um “ok” sem palavra.
Apagou o cigarro no chão.
Então veio a ordem.
Ele apontou para o bolso interno do capote de Antônio, onde o tecido era mais grosso. Fez com a mão o gesto de escrever no ar — e, em seguida, o gesto de rasgar papel com força.
— Don’t write.
Antônio não entendeu cada sílaba. Mas entendeu o ritual.
Atrás dele, Santos traduziu do jeito que dava, com medo de errar e errando pouco:
— Não... não escrever. Não anotar.
O americano completou com a outra palavra, batendo com dois dedos na própria têmpora, seco, como carimbo:
— Forget.
Essa não precisava de dicionário. Precisava de obediência.
Antônio assentiu uma vez.
Não porque dominasse a língua.
Mas porque reconheceu a forma da ordem: curta, sem justificativa, como ordem que não admite testemunha.


